Oração funebre recitada nas exequias do Illm.^o e Exm.^o Sr. Pedro Alexandrino da Cunha | Page 2

Antonio Vasconcellos
leio em vossos semblantes, da profunda magoa que respiram estas paredes luctuosas, e do honroso e lugubre preito de homenagem �� virtude, que significa toda esta festa funebre.
O Sr. Pedro Alexandrino da Cunha, do Conselho de Sua Magestade, Commendador das Ordens d'Aviz, e Torre e Espada do Valor, Lealdade, e Merito, Capit?o de Mar e Guerra, Governador Geral que foi desta Provincia, e da de Macau, j�� n?o existe; e nem se quer podeis ter a consola??o de verter sobre o seu tumulo uma lagrima de saudade.
Esse elevado ata��de em que devia descan?ar o seu cadaver at�� que em nossos bra?os fosse condusido �� ultima morada, est�� vasio; e jazem a muitas legoas das nossas praias, apenas cercados de um pequeno torr?o de terra portugueza, os restos do cidad?o virtuoso, do administrador honesto e probo, do chefe incorrupto e severo, do homem discreto e grave, do patriota intelligente que vos governou durante o curto espa?o de tres annos; mas se falta ali o despojo mortal do vosso virtuoso amigo, est�� nos cora??es de todos o elevado padr?o que o representa, a geral e publica saudade, a universal admira??o pela sua constante virtude, e o profundo respeito pela sua honrada memoria.
Dedicada assiduidade no cumprimento dos seus deveres, gravidade e circumspec??o no exercicio dos empregos publicos, inabalavel amor da justi?a e igual firmeza em administra-la, protec??o desinteressada aos desvalidos, cautelosa desconfian?a dos poderosos, e igualdade severa em attender a todos, honestidade sem a mais ligeira m��cula, e modestia exemplar, foram as qualidades que reunidas �� vasta intelligencia que lhe d��ra a natureza, e que elle cultiv��ra com esmero, o fizeram respeitado e grande em um e outro hemispherio, e ainda al��m do temeroso cabo a que em tempos mais felizes troc��mos o nome com espantosa previdencia do futuro.
Importa pouco saber se o Sr. Pedro Alexandrino da Cunha, pertencia �� classe da nobreza portugueza: as nove cunhas de oiro que illustram o braz?o da familia do Alferes-M��r de D. Jo?o I., n?o acrescentariam uma folha sequer aos immarcessiveis loiros da sua gloria, nem o exemplo de nobilissimos ascendentes poderia imp?r-lhe maiores obriga??es, do que as que seu honrado pae lhe legou morrendo em Argel de feridas recebidas em combate com os moiros, quando ainda faltavam alguns mezes para o nascimento de seu filho[1].
O Sr. Pedro Alexandrino da Cunha, aceitou corajosa e dedicadamente este legado paterno de servir a patria, e de morrer por ella; e cumprio-o com espantosa perseveran?a.
A sua vida foi desde os primeiros annos votada inteiramente ao servi?o do Estado, j�� preparando o seu espirito com assiduos e convenientes estudos em que todos o admiraram, j�� escolhendo uma nobre profiss?o, da qual s?o socios inseparaveis os trabalhos mais rudes, as mais improbas fadigas; e com effeito, os incompletos dez lustros da sua laboriosa existencia foram passados nas mais trabalhosas commiss?es do servi?o publico[2].
Apenas entrado nos primeiros postos do Exercito, abrio-se-lhe largo ensejo de mostrar as suas propens?es politicas, a capacidade do seu espirito, a extens?o, e utilidade do seu prestimo e valia.
A liberdade acenou-lhe do alto daquelle rochedo heroico em que depois de desastrosos acontecimentos se apinhavam os seus bravos defensores, e o Sr. Pedro Alexandrino da Cunha, j�� estava na Ilha Terceira quando o filho mais mo?o do Imperador e Rei acabava apenas de sentar-se no Throno de Portugal[3].
Ali como Official de Infanteria, e depois como Official da Armada, mostrou em arriscadas commiss?es para quanto o habilitavam a escolha dos seus estudos, a seriedade de seu caracter, e a sua infatigavel actividade[4]; e desde esse tempo at�� ir com o Duque de Bragan?a cravar nas praias do Mind��lo o estandarte da liberdade portugueza, p?de por tal f��rma provar o muito para que era, que nas continuas e indispensaveis lutas da nossa difficil reconstruc??o politica, nenhum governo p?de dispensar os seus servi?os, nenhuma considera??o aconselhou nunca que o afastassem dos negocios publicos, porque o Sr. Pedro Alexandrino da Cunha, era mais patriota que partidario, mais homem do seu paiz do que homem das fac??es[5].
Quasi estranho ��s nossas dissen??es civ��s vivia para os melhoramentos uteis, para os grandes pensamentos praticos, sem os quaes n?o ha civilisa??o possivel; e naquella alma, que o fogo das paix?es politicas n?o consumira, vegetavam com a virgindade da primeira florescencia o amor da Patria, o dezejo do engrandecimento e respeito do nome portuguez, o infatigavel ardor pela realisa??o dos melhoramentos materiaes, e uma certa moralidade catoniana que passaria por fabulosa se v��s todos a n?o testemunhasseis, se este acto grandioso e sublime n?o fosse a prova mais indisputavel desta profunda verdade.
V��s, que o conhecestes entregue aos curiosos e difficeis trabalhos do exame e explora??o da costa do sul de Benguella, e empregado na repress?o de um trafico illicito, que os habitos inveterados, e a falta de boa direc??o administrativa faziam parecer impossivel evitar, trafico que a philosophia
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